O banheiro é um dos locais mais utilizados em qualquer edificação, mas também um dos mais perigosos do ponto de vista elétrico. O risco de choque elétrico é muito maior em ambientes úmidos devido à redução da resistência elétrica do corpo humano quando molhado e à proximidade com o potencial da terra (pisos, ralos, encanamentos).
A ABNT NBR 5410, norma brasileira que trata de instalações elétricas de baixa tensão, sempre dedicou atenção especial a esse ambiente. Na revisão atualmente em consulta pública, foram apresentadas novas diretrizes para banheiros, com mudanças importantes que afetam projetos residenciais, comerciais e de serviços.
Por que banheiros são considerados “locais de risco elevado”?
Segundo a NBR 5410, o corpo humano molhado pode ter sua resistência reduzida para menos de 1.000 Ω, contra valores de até 100.000 Ω quando seco. Isso significa que correntes muito menores podem ser suficientes para causar choque ou até fibrilação ventricular em um usuário no banho.
Outros fatores aumentam o risco:
- Contato simultâneo com superfícies aterradas (metais, registros, canos).
- Ambiente molhado, que favorece a condução da eletricidade.
- Uso de equipamentos elétricos em proximidade direta com água (chuveiros, duchas, hidromassagens).
Por isso, a norma cria zonas de proteção (volumes 0, 1 e 2) e estabelece regras rígidas de o que pode ou não ser instalado em cada uma delas.
Entendendo os volumes 0, 1 e 2
Os volumes são regiões do banheiro definidas pela proximidade com a banheira, boxe ou chuveiro.
- Volume 0:
- O interior da banheira ou do boxe de ducha.
- Local de maior risco, sujeito a imersão direta.
- Só podem existir equipamentos de extra baixa tensão de segurança (Classe III, SELV, até 12 Vca ou 30 Vcc) e com grau de proteção IPX7.
- Volume 1:
- A área acima do volume 0 até a altura de 2,25 m.
- Também muito crítico, sujeito a jatos de água.
- Permitidos somente equipamentos Classe I ou II destinados a esse uso: chuveiros, aquecedores de água, hidromassagens, exaustores de teto específicos.
- Volume 2:
- Faixa adjacente de 60 cm ao redor do volume 1, até a altura de 2,25 m.
- Área de risco intermediário.
- Aqui entram as principais mudanças da revisão: interruptores, tomadas e equipamentos adicionais podem ser instalados, desde que respeitadas condições.
Antes, havia também o Volume 3 (até 2,40 m adicionais), mas sua exclusão foi uma das mudanças da revisão, pois não havia requisitos específicos e gerava confusão.

Principais mudanças da revisão da NBR 5410
- Eliminação do volume 3
- Simplificação do conceito de áreas de risco.
- Agora só existem volumes 0, 1 e 2.
- Correção da altura do volume 2
- Volta ao valor de 2,25 m, que sempre foi a referência internacional.
- Evita interpretações erradas sobre projetos.
- Permissão para interruptores no volume 2
- Permitido apenas se:
- Atender à NBR NM 60669-1 (norma de interruptores);
- Circuito de até 240 V;
- Protegido por DR de 30 mA.
- Permitido apenas se:
- Permissão para tomadas no volume 2
- Agora aceitas, desde que:
- Limitadas a 240 V;
- Protegidas por DR de 30 mA.
- Agora aceitas, desde que:
- Permissão para equipamentos nos volumes 1 e 2
- Apenas Classe I ou II.
- Exemplos:
- Aquecedores de água elétricos;
- Toalheiros aquecidos;
- Desembaçadores de espelho;
- Ventiladores e exaustores específicos;
- Banheiras de hidromassagem.
Classe I, II e III: o que significam?
A norma faz referência à IEC 61140, que classifica os equipamentos conforme a proteção contra choques:
- Classe I
- Ligação obrigatória ao terra (PE).
- Exemplo: lavadoras de roupas, secadores de cabelo profissionais, aquecedores de água com plugue de três pinos.
- Classe II
- Equipamentos com dupla isolação (símbolo: ▢ dentro de ▢).
- Não possuem ligação ao terra.
- Exemplo: secadores portáteis, barbeadores, luminárias portáteis.
- Classe III
- Funcionam em extra baixa tensão de segurança (SELV).
- Até 12 Vca ou 30 Vcc.
- Exemplo: luminárias LED de 12 V instaladas em box de vidro.
O papel do dispositivo DR (30 mA)
A revisão reforça o uso obrigatório de Dispositivo Diferencial Residual (DR) de 30 mA em todos os circuitos de banheiros.
- Detecta correntes de fuga para terra (choques).
- Desarma em milissegundos, protegendo contra choques fatais.
- É considerado o principal dispositivo de proteção à vida em instalações residenciais.
Sem DR, o risco de choque em banheiros é inaceitavelmente alto, mesmo com outras medidas.
Impactos práticos em diferentes tipos de projetos
- Residências:
- Maior flexibilidade para instalar tomadas próximas a espelhos e bancadas.
- Permite o uso seguro de toalheiros aquecidos e desembaçadores.
- Hotéis:
- Facilita a instalação de vasos sanitários elétricos com assentos aquecidos, muito usados no exterior.
- Aumenta o padrão de conforto sem comprometer a norma.
- Hospitais e clínicas:
- Permite melhor utilização de equipamentos auxiliares em banheiros acessíveis.
- Garante segurança para pacientes em situação de vulnerabilidade.
O que muda para projetistas e instaladores
- Projetistas: devem atualizar seus layouts e memoriais, considerando que interruptores e tomadas podem ser posicionados dentro do volume 2.
- Instaladores: precisam garantir uso de DR 30 mA e correta identificação dos equipamentos Classe I ou II.
- Consumidores: terão mais conforto e opções em banheiros modernos, com segurança assegurada.
Conclusão
A revisão da ABNT NBR 5410 para instalações em banheiros representa um equilíbrio entre segurança elétrica e modernização dos usos.
Os principais avanços são:
- Simplificação dos volumes (eliminação do volume 3).
- Correção da altura do volume 2.
- Inclusão de tomadas, interruptores e novos equipamentos.
A exigência de DR 30 mA e a obrigatoriedade de equipamentos Classe I ou II garantem que a flexibilidade não comprometa a segurança.
Essa atualização é essencial para que banheiros brasileiros possam receber soluções já comuns no mundo, como toalheiros aquecidos, desembaçadores de espelhos e sanitários elétricos, tudo com proteção adequada contra choques.
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